terça-feira, 25 de maio de 2010

Memórias de um Operário Menos Conhecido


Meu nome é José Nascimento da Silva e vou contar agora a história de parte da minha vida.

Tudo começou há muito tempo quando eu ainda era um moleque de 10 anos de idade e vivia com minha mãe Márcia e minha vó Leocádia numa comunidade pobre de uma grande cidade. Minha mãe, empregada doméstica, saía as quatro horas da manhã para ir trabalhar e me deixava aos cuidados da minha vó que me arrumava e me levava para a escola.

Eu gostava de ir para a escola. Era lá que via meu melhor amigo Roberto. Roberto era um garoto muito esperto e companheiro, admirado pela maioria das pessoas, mas somente eu tinha o privilégio de receber o título de seu Melhor Amigo. Sempre o chamava de Beto, mas as outras pessoas costumavam chamá-lo de Azulão, devido a sua pele tão negra que mais parecia um azul escuro. Beto não ligava, na verdade até gostava, dizia que era mais fácil ganhar dos “pálidos” no pique-esconde, brincadeira que de fato ele era mestre.

Na verdade era difícil achar algo que Beto não era bom. Diferente de mim que sempre fui uma negação nos esportes, Beto era o primeiro a ser escolhido na pelada diária depois da escola.

Foi numa dessas peladas que nossa calma vida de moleque sofreria uma reviravolta impressionante.

O jogo já havia começado no campinho de terra perto de nossa casa. Eu buscava meu melhor posicionamento no campo, o mais distante possível de qualquer chance de passe ou outra participação na jogada e Beto já havia feito 2 dos 4 gols da vitória parcial de nosso time por 4 a 1. Foi quando ouvimos o pipoco característico de dois tiros seguidos de um. Mesmo naquela época, já estávamos acostumados com esse tipo de som, mas o que chamou nossa atenção dessa vez foi a direção dos disparos.

Beto morava com a mãe e o pai a três casas da minha. Minha mãe não gostava muito da minha amizade com Beto, pois dizia que falavam por aí que os pais deles eram envolvidos com coisa ruim. Na casa deles, de vez em quando e na maioria das vezes de madrugada, apareciam pessoas de fora da comunidade e ficavam lá dentro um tempão até saírem também escondidos. Beto nunca falava sobre isso e eu também não perguntava muito. Porém, as vezes que vi seus pais, eles me pareceram pessoas muito boas.

Como eu ia contando, era de lá que viam os disparos... Eu e Beto imediatamente abandonamos o jogo, apesar dos protestos de alguns mais lesados. Corremos lado a lado – mentira, ele correu bem à frente, é obvio, e eu fui tentando alcançá-lo. Quando viramos a esquina vimos as sirenes da polícia e um monte de curiosos que já se aproximavam do local e o local, como temíamos, era na frente da casa do Beto.

Beto sempre soube, desde o momento que ouviu os disparos, que eles vinham de lá, mas desejava estar errado. Quando finalmente cruzei pelos curiosos em volta do local vi Beto parado, aparentemente sem reação olhando a cena. Nunca mais vou esquecer disso... Apesar de sua aparente falta de expressão, vi quantos sentimentos estavam em seus olhos enquanto mirava para seu pai e sua mãe deitados numa poça de sangue. O pai jazia deitado sobre o corpo da mãe. No corpo dela havia dois tiros no peito e no pai um tiro na nuca. De dentro da casa os policiais tiravam muitos papéis e três armas: duas pistolas e um rifle. Na roda de curiosos muitos comentavam coisas como: “Eu sempre soube que eles não eram boa gente.”, “Aposto que vendiam drogas.” e até mesmo: “Não duvidaria que o filho estivesse nessa também.”.

Nunca na minha vida, até aquele momento, havia sentido tanta raiva como eu senti daqueles abutres. Não sabia e nunca soube o porquê os pais do Beto foram mortos e mesmo tendo, um grande jornal, no dia seguinte estampando na capa a frase: “Terroristas mortos”, eu não conseguia ver maldade naquelas pessoas.

Minha mãe chegou mais cedo do trabalho, pois havia recebido a notícia de um vizinho fofoqueiro. Veio direto até mim e me puxou arrastando para fora do tumulto, escapei de suas mãos, corri até Beto, lhe dei um abraço não correspondido e falei assim no seu ouvido: “Eu nunca vou te abandonar Beto!”, ele nada respondeu e continuou ali parado enquanto minha mãe me arrastava e tagarelava no caminho para casa.

Beto foi para a casa da tia que ficava do outro lado dessa mesma comunidade. Continuamos nos vendo na escola até o final daquele ano, mas nunca mais voltamos juntos para jogar a tradicional pelada depois da escola. Beto dizia que sua tia não deixava e que agora ele morava mais longe, mas sei que ele também não andava com ânimo para mais nada, o que não era surpresa. Eu me sentia triste por não saber como ajudar.

Nas férias de verão daquele ano fui visitá-lo duas vezes. Brincamos um pouco e eu voltava antes que escurecesse. Minha mãe não gostava da idéia, mas deixava quando eu insistia muito e as vezes ia escondido. Mesmo brincando de tudo que brincávamos antes Beto não parecia mais o mesmo.

No primeiro dia de aula do ano seguinte esperei por ele e não o vi. Esperei uma, duas semanas sem ter notícia. Decidi que ia passar na sua casa depois da aula sem que minha mãe ou minha vó soubessem. Chegando lá encontrei a casa vazia sem ninguém. Sentei na soleira da porta e esperei, esperei e esperei. A noite já avançava muito e eu não tinha mais nenhuma esperança de encontrá-lo quando o vi chegando. Beto me explicou que agora estava trabalhando na mesma indústria que seus pais trabalharam. Sua tia o obrigou, porque as despesas aumentaram muito com sua presença lá. Ela passava dias fora de casa e depois dias em casa sem fazer nada, Beto não tinha a menor idéia do que ela fazia. Disse também que o trabalho é pesado, difícil, muito cansativo e que seu salário vai todo para pagar as contas e comprar comida. Beto guarda cinco reais todo mês para alguma emergência.

Conversamos até muito tarde, para desespero da minha mãe, que me esperava acordada, chorando e não sabia se me batia, me beijava, me xingava ou abraçava quando eu cheguei.

Os anos se passaram e desde aquele dia eu não mais vi o Beto. Dois anos depois minha vó morreu quase no mesmo período em que minha mãe foi demitida. A vida tornou-se cada vez mais dura, a gente nunca saía para se divertir e passei a usar o fim de semana para descolar uns bicos e ajudar na renda de casa. Minha mãe fazia questão que eu terminasse a escola e assim fiz. Meio aos trancos e barrancos, mas consegui. Estava livre para procurar um emprego de verdade.

Tomei muita portada na cara. Muitos nãos. Trabalhei em diversos lugares e fui até camelô por um tempo. Mas meu primeiro emprego com carteira assinada foi numa fábrica perto dali. Esse foi um momento muito marcante na minha vida. Nunca havia esquecido meu amigo de infância Beto, mas essa era uma daquelas lembranças que pertenciam somente à um passado que hoje parecia tão distante. Qual foi minha surpresa ao ver Beto, o Azulão, ali entre os trabalhadores na linha de montagem da fábrica.

Beto quase não me reconheceu, e para falar a verdade ele também estava bem diferente, mas reconheceria aqueles olhos astutos em qualquer lugar. Nos falamos rapidamente, até sermos repreendidos pelo capataz que nos mandou voltar ao trabalho. Almoçamos juntos e rapidamente trocamos algumas idéias, mas o tempo de almoço também não era suficiente para amigos separados há 10 anos. No fim do turno resolvemos trocar umas idéias num bar que ficava nas redondezas tomando algumas cervejas.

O assunto rendeu algumas garrafas postas na conta do Beto, para desgosto do, com razão, desconfiado, dono do boteco que disse: “Só porque é você Beto e porque eu tinha muita consideração por seus pais.”. O assunto variou muito. Falamos dos tempos de criança, das travessuras, das brincadeiras. Falamos do período que não nos vimos, o que fazemos, os romances, e o dia-a-dia difícil do cotidiano do trabalhador. Falamos também de coisas do presente. Beto me disse que faz parte do sindicato e que lá conheceu diversas pessoas que eram amigas de seus pais e não só por isso, têm grande admiração por ele.

Ao falar disso, Beto parecia não estar mais exausto e com sono e seus olhos brilhavam da mesma forma que brilhavam quando íamos jogar bola depois da aula. Ele me disse que é difícil e que devemos tomar muito cuidado, mas que acredita que vale a pena porque um dia a vida dos trabalhadores negros e brancos pobres iria mudar! Confesso que era a primeira vez que eu ouvia coisas assim e que muito do que ele falou eu não entendi, mas só pela forma que Beto falava me motiva para seguir seus passos.

Nos aproximamos novamente e logo eu percebi o quanto Beto era popular naquela indústria. Bom, pelo menos entre os trabalhadores, o capataz e pelo que contam, o dono da fábrica que nunca víamos, não iam muito com a cara de Beto.

No refeitório havia uma grande imagem de um homem branco, com seus 40 anos, de terno e gravata, loiro e de olhos claros, com um sorriso no rosto. Diziam que aquele era o dono da fábrica e todos temiam aquele retrato que parecia vigiar-nos.

Conheci muitos amigos dele que compartilhavam do seu sonho de uma vida melhor para os trabalhadores e aos poucos fui entendendo como funcionava a dinâmica do sindicato.

Muitas vezes o patrão arrumava um jeito de boicotar e persegui os membros do sindicato e certamente Beto era um dos mais visados. Ele me explicou que já fora pior e que agora as coisas estavam mudando. A vez do trabalhador chegaria!

Pouco tempo depois os trabalhadores entraram em greve geral e eu acompanhei de perto a atuação de Beto e de outros líderes naquela greve. Lutávamos por melhores salários, melhores condições de trabalho entre outras demandas. Foi a coisa mais impressionante, assustadora e bonita que já tinha visto. Um mar de gente até onde a vista alcançava estava no pátio ouvindo Beto e os outros falarem. As faixas, as palavras de ordem, isso tudo me fez acreditar pela primeira vez que aquele mundo diferente que Beto tanto falava poderia, de fato, vim a ser real!

A greve durou vários dias e o governo declarou que aquilo era ilegal. Os trabalhadores decidiram não voltar ao trabalho. Depois foi feito um acordo e somado a exaustão de dias de luta, a greve terminou.

Infelizmente não só os patrões descumpriram o acordo como dias depois o presidente do sindicato, Beto e mais 16 sindicalistas foram presos e afastados do sindicato.

Me doeu no coração ver no jornal o dono da fábrica chamando os grevistas de vagabundos e oportunistas. Sabia que isso era mentira e que Beto não era assim.

Era esse tipo de dificuldade que Beto já havia me falado e me alertado. Ele me dizia: “Zé, as coisas serão muito difíceis. Ainda apanharemos muito antes de conseguir mudar tudo!”. Com isso em mente, em nenhum momento perdi minha fé em Beto e suas idéias.

O tempo foi passando. Disseram que o regime político havia mudado. Eu devo confessar que não notei tanta diferença. Na verdade, as coisas pareciam ficar cada vez mais difíceis.

Beto conseguiu voltar ao trabalho e a sua luta, mas pelos olhos dele eu sentia alguma coisa diferente. Isso me lembrou daquele olhar do dia em que seus pais foram assassinados. E eu não gostei disso.

Beto estava cada vez mais afastado de mim. Não fisicamente como quando éramos crianças, pois passávamos o dia todo juntos, mas o sentia longe. Seu discurso também foi mudando aos poucos. A sociedade que ele tanto sonhava e que seria tão difícil de conquistar, para ele estava cada vez mais próxima e cada vez mais fácil de chegar lá. Eu estranhava, porque não sentia mudanças significativas acontecendo.

Um dia Beto veio conversar comigo. Ele seria candidato nas próximas eleições e me chamou para participar da campanha. Fiquei feliz por ele, mas disse que seria muito difícil devido ao trabalho diário na fábrica. Beto então me disse que ia largar o emprego, pois estava ganhando para fazer política e que poderia me ajudar. Respondi que iria ajudá-lo sim, mas que continuaria na fábrica e ele aceitou.

Falei com muita gente, distribui muito panfleto no trabalho. Fazia isso, mas sentia que cada vez mais fazia pela amizade e não pela política. Tentei afastar esses pensamentos, afinal de contas Beto nunca iria desistir de mudar o mundo, pelo menos era o que eu queria acreditar.

Beto foi eleito e pela primeira vez o vi usando terno. Confesso que achei horrível, não combinava com ele, mas Beto adorou. Andava o dia todo com aquele terno quente. Ele me convenceu a ser seu assessor no gabinete. Os tempos estavam difíceis e o salário era o mesmo para trabalhar menos. Aceitei, mesmo com o pé atrás.

Outras eleições vieram e o Beto foi crescendo na política.

Outro dia aconteceu algo que me levou estar sentado aqui escrevendo minhas memórias. Algo que feriu e apertou meu coração, como se um trator passasse por cima dele. Eu havia perdido meu amigo Beto...

Estava em seu escritório quando ele recebeu os líderes de uma greve de professores por melhorias salariais, entre outras demandas. Fiquei curioso em assistir a reunião. Acreditava que aquilo poderia trazer o velho Beto de volta e que seria uma ótima oportunidade de conseguir vitórias pelas quais Beto e outros haviam sido presos e todos haviam lutado tanto. Foi quando aconteceu...

A Reunião estava num impasse. Os trabalhadores não queriam recuar em suas reivindicações mínimas e Beto teimava que elas eram utópicas. Em um momento de raiva Beto levanta e diz:

“Vocês são um bando de vagabundos e oportunistas! Saiam já de minha sala!”.

Foi um tiro no peito. Tão forte quanto o tiro que acertou a mãe de Beto há muitos anos atrás naquela comunidade pobre perto daqui. Mas esse tiro que acertou Beto foi dado por ele mesmo.

Voltei para casa arrasado. Sentei de frente para a televisão e fiquei assistindo sem assistir. Pensando no que acabara de acontecer. Derrepende, reconheci um antigo companheiro de sindicato que falava pela TV. Aquele terno também não lhe caia bem. Era da mesma marca que matara o Beto. Ele estava tão diferente. Não era somente a roupa chique ou a velhice. Não reconheci as palavras daquele velho companheiro como não reconhecia mais as do Beto.

Tomei uma decisão. Não consegui dormir essa noite, então sentei aqui e comecei a escrever essa carta que provavelmente nunca mostrarei para ninguém. Saindo daqui vou até o escritório do Roberto e acabarei com isso.

José saiu de casa e o sol havia acabado de nascer. Pegou o ônibus que levava até o centro da cidade, onde ficava o escritório de seu amigo de infância. Fez tudo isso como no piloto automático. Seus pensamentos continuavam viajando por aquela histórias que acabara de escrever, revivendo cada momento ao lado do falecido companheiro.

Subiu o elevador que dava na sala onde trabalhava. Chegara logo depois do Roberto que estava de costas olhando pela janela.

“Beto” – Chamou José, mas não conseguiu a atenção.

“Beto” – Insistiu um pouco menos tímido.

“Senhor?” – Tentou.

Roberto olhou para trás e viu que ali estava seu velho amigo de infância.

“Grande Zé! Estava agora mesmo pensando em você! Estava lembrando de quando éramos moleques e brincávamos de bola depois da aula. Você sempre foi um perna-de-pau!”.

“Quem diria, né Zé, que um dia chegaríamos aqui?”.

“Quem diria...” – Respondeu Zé cabisbaixo. “Beto... Tô fora. Não vou mais trabalhar com
você. Arrumarei um emprego. Não precisa me procurar.”

“Você está louco Zé?! Logo agora que conquistamos tudo aquilo que lutamos quando
trabalhávamos naquela maldita fábrica?! Você não pode desistir de tudo agora!”

“Não estou desistindo. Meu amigo Beto me ensinou que as coisas seriam muito difíceis, mas
que no final iríamos mudar tudo. Agora eu entendo o quanto difíceis essas coisas se tornaram. Mas um dia tudo vai mudar. Eu sei disso.”

“Mas as coisas mudaram! Quando na história desse país você teria um político sindicalista
negro e um presidente...”

“Sindicalista?” – Interrompeu José – “Negro? Olhe-se no espelho, Roberto.”

Dito isso José virou as costas e saiu porta a fora, sentindo-se muito aliviado, apesar de triste.
Ainda surpreso Roberto caminhou na direção de um grande espelho que havia em seu escritório. Mal conseguiu acreditar no que via. Encarando-lhe nos olhos, do outro lado do espelho, havia um homem branco, com seus 40 anos, de terno e gravata, loiro e de olhos claros, com um sorriso no rosto.

terça-feira, 30 de março de 2010

Serão Dilma e Serra iguais?


Dizer que o governo Lula foi igual ao governo FHC não é só errado, como também um problema tático gravíssimo. Assim como é provável que um governo Alckimin fosse diferente de um segundo mandato do Lula, mas isto não podemos estipular, ainda mais nós pretensos historiadores.

A questão é, quais são essas diferenças? Lula foi eleito em 2002 com amplo apoio dos movimentos sociais que apostavam no projeto democrático popular do PT e imaginavam que através do governo Lula poderíamos ter um freio ao neoliberalismo e uma política ligada aos movimentos sociais. Grande ilusão. Já em 2002 o PT mostrava para que veio, quando a principal meta do partido passou a ser a vitória eleitoral, coerente a tal projeto democrático popular. Para isso, aceitou-se aliança com partidos da burguesia e financiamento de campanha feito por grandes empresários. Alguns setores honestos do PT - pois a grande maioria já estava envolvida com essa nova concepção de que o mandato deve ser o principal foco - achavam que poderiam "bater uma queda-de-braço" com esses partidos burgueses aliados ao empresariado e ao capital internacional que olhava atentamente para o Brasil. Logo logo essa queda-de-braço mostrou-se o quão era desigual. A linha da "governabilidade" do PT fez com que o partido fizesse o jogo da burguesia e aplicasse uma política coerente com o capital internacional.

Porém a conjuntura histórica internacional e nacional era bem diferente da conjuntura da Era FHC. Na América Latina, via-se a chegada ao poder, atravéz das eleições burguesas, alguns governos reformistas que representavam um freio às políticas neoliberais imperialistas norte-americanas - como é o caso da Venezuela, da Bolívia e do Equador. No Brasil, apesar de algumas diferensas, os movimentos sociais estavam nas ruas fazendo a campanha de Lula em 2002 e não foi atoa que haviam milhares de pessoas em sua posse como presidente. Não eram pessoas que simplesmente estavam passando por lá e resolveram ficar. Lá estavam os movimentos sociais dando um recado: "Lula pode fazer, que nós garantimos!". A conjuntura, portanto, não era favorável à políticas dos tucanos de privatização explícita e vergonhosa dos bens nacionais.

Lula surge então como uma alternativa perfeita para o avanço tranquilo destas políticas. Aí está a grande diferensa entre os dois governos. Lula pega os esboços das políticas sociais assistêncialistas de FHC e aplica de forma real. É impressionante o número de pessoas atingidas pelas bolsas pelo Brasil a fora. Esta política, intimamente ligada a figura pessoal, carísmática e "com a cara do povo" - como dizia o lema da campanha de 2006 - de Lula, de fato tirou da miséria um número impressionante de pessoas. Onde se morria de fome, agora, com os cento e poucos reais do governo e uma cesta básica, isso não ocorre mais.

Ao mesmo tempo, aplica-se uma política voltanda para a burguesia. A Reforma previdênciária, por exemplo, que atingiu de forma mais bruta o funcionalismo público, se adequa perfeitamente as demandas do mercado. As privatizações continuam, como a da rede ferroviária, porém desta vez não é possível fazer um processo muito explícito. Os leilões do petróleo são, por exemplo, uma forma discreta de privatização. Entrega-se ao grande capital internacional a extração de uma grande reiqueza brasileira. O Pró-UNI, com a desculpa de possibilitar a entrada de pessoas da classe mais pauperizada na universidade, entregam esses estudantes para uma rede de ensino privada, cujo a lógica não é formar um cidadão crítico, mas sim formar, o mais rápido possível uma mão-de-obra para o mercado de treabalho. Isto junto com um crescimento assustador das universidades particulares nos ultimos 10 anos.

Segue a mesma lógica o projeto do governo federal para uma reforma universitária, o REUNI. Este, foi apresentado através de um decreto que estipula metas a serem cumpridas para que o dinheiro seja repassado para as universidades federais. Estas tinham um prazo para “escolherem” aderir ou não as metas, tendo em vista , é claro, que quem não aderisse não receberiam as verbas. Para além da forma autoritária que praticamente todas as universidades federais aprovaram o projeto – fazendo votação dentro de quartel, dentro do palácio de juntiça com PM na porta não deixando a oposição entrar, como foi no caso da UFF -, o projeto prevê o aumento de 100% do número de alunos nas universidades, com um aumento de 20% do números de professores, o que geraria salas de aula super lotadas. O tempo de graduação também seria reduzido. As metas também estipulam a dissolução do tripé ensino-pesquisa-extenção e um aumento para 90% de taxa de conclusão – superior a inúmeros países desenvolvidos – que levaria os professores, pressionados pela ameaça de não vinda das verbas, à uma não intitucionalizada aprovação automática, entre outras coisas. Essas metas tem um claro objetivo de ampliar o número de vagas nas universidades, aumentando o número de estudantes vindo das classes mais pobres da população, respondendo assim à uma demanda atual do mercado, de uma mão-de-obra mais qualificada. Esta qualificação é feita o mais rápido possível, para poder suprir esta necessidade do mercado, tranformnando a universidade pública numa verdadeira fabrica de mão-de-obra.

Desta forma, o governo apropria-se de bandeiras históricas dos movimento sociais, distorce para que sirvam para os interesses do capital, e aplica na sociedade. Para isto conta com a ajuda de organizações de base como a UNE e a CUT, que devido a suas direções majoritárias, que não só são do PT e dos partidos governistas – como o PCdoB- , como também passaram a compor formalmente este governo. Extremamente burocratizadas tornaram braço direito do governo, aplicando no movimento as políticas ditadas pela presidência, acabando assim com a independência política que estas organizações devem ter com os governos.

A crise econômica que, segundo o governo, não atingiu o Brasil, fez e ainda faz vítimas dentro da classe trabalhadora. Sem nenhuma intervenção estatal, grandes empresas demitem milhares de trabalhadores para tentarem escapar da crise. Estes trabalhadores não encontram nenhum respaldo em suas organizações sindicais ligadas à CUT que seguem a linha do governo e do empresariado, de socialização dos prejuizos.

O governo reprime duramente os sindicatos de luta, como é o caso do ANDES (Sindicato nacional dos professores) que passou a não ser mais reconhecido como representante dos professores pelo governo que também tirou o disconto em folha dos filiados ao sindicato, dando um duro golpe nas financias deste sindicato. Durante a greve da previdência, que não pedia nada mais que a manutenção de velhos direitos, o governo além de não atender a nenhuma revindicação, decretou a greve ilegal e passou a contar os dias de greve como falta no trabalho.

Sim. O governo Lula foi diferente do governo FHC e certamente seria diferente de um governo do Serra ou do Alckimin. O governo Lula soube aplicar o projeto neoliberal da burguesia nacional e internacional, ao mesmo tempo que com sua política assistêncialista e paternalista, deu ao povo um mínimo necessário à sobrevivência, evitando grandes agitações populares como na Venezuela, Bolívia e Equador. Não é atoa que durante o governo Lula, os bancos batessem recordes e mais recordes de lucro.

Não acredito que Dilma e Serra sejam iguais. Mas certamente, pelo que vimos nos últimos 16 ou mais anos, os dois estão ali representando o setor dominante da sociedade brasileira. Estão a serviço do capital e por isso mesmo são apoiados por partidos da burguesia e por grandes empresários, que não estão unidos – não na corrida presidencial pelo menos – devido apenas a uma disputa de poder.

É importante deixar claro que a falça alternativa à esquerda de Marina do PV, também deve ser posta ao lado de Dilme e Serra na defesa do status quo da sociedade brasileira. Não é atoa que em seu partido, o PV, estão filiados os mais ricos empresários brasileiros, que aderem à um ambietalismo de mercado que trata as questões ambientais de forma superficial, mas que faz bem, atualmente, ao nome da empresa. O PV de Zequinha Sarney, é aliado ao PSDB no Rio de Janeiro e certamente aliado ao PT em inúmeros estados e municípios brasileiros.

Devemos apresentar nesta campanha eleitoral uma candidatura que seja autenticamente anti-capitalista e claramente socialista. Nesta campanha, devemos denunciar não só que Dilma, Serra e Marina, representam o mesmo projeto – com algumas diferensas pontuais – mas também denunciar a farça das eleições. Dizer que fazer política não é somente ir votar a cada 2 anos como se diz na Globo. Fazer política é se organizar e lutar pelos direitos dos historicamente explorados por este sistema. Nossa campanha deve estar voltada para e construída com os movimentos sociais, falando de uma ampla e real reforma agrária, reforma urbana, reforma eleitoral (contra o financiamento privado de campanha por exemplo), pelo fim do senado corrupto. Uma campanha de esquerda que ponha o dedo na ferida dos poderosos.

A eleição, a representatividade no parlamento burguês, não deve ser desprezada, pois é um importante espaço de denúncia. Mas os partidos de esquerda devem saber que seu foco principal é na atuação junto aos movimentos sociais. É na disputa das organizações da classe trabahadora, conscientizando e chamando para a luta no dia-a-dia.

É por isso que nós, de parte do PSOL, chamamos a candidatura de Plínio de Arruda Sampaio, e chamamos para fazer parte deste “projeto socialista para o Brasil” os partidos da Frente de Esquerda (PSTU e PCB) e também os movimentos sociais. Neste momento em que se apresenta uma falça polarização entre PT e PSDB – que nada mais é que uma disputa administrativa – e uma falça alternativa, que é a Marina (PV), a esquerda socialista deve estar unida numa frente única, não só nas eleições, mas principalmente na atuação nos movimentos sociais.

Renan da Cruz Padilha Soares
Partido Socialismo e Liberdade
Coletivo Socialismo e Liberdade

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sobre Ônibus e Telefones


São três horas da manhã e o telefone toca... Normalmente não gosto de receber ligações de madrugada, tenho sempre a impressão que se alguém ta me ligando a essa hora, não pode ser boa coisa. Mas desta vez foi diferente.

Foi diferente porque eu tinha certeza de quem era e tinha certeza de quem era, porque a 5 minutos estava falando com esta pessoa pelo telefone. 5 minutos foi o que Ela precisou para jogar no papel uma linda poesia que sua mente inquieta a impulsionou a escrever e 5 minutos foi o que ela precisou pra me emocionar e surpreender, novamente, com aquela poesia.

Um “Romance sobre rodas” é muito significativo, pois representa não só como nos conhecemos na viagem de ônibus para Porto Alegre, não só nossas viagens através do Rio para nos vermos, para reuniões, para comemorarmos – ou lamentar no seu caso – mais um vice de seu time – não pude deixar de fazer a piadinha -, como a roda que nos leva a tantos lugares e a janela, “sem grades”, que olhamos para o mundo em movimento, representam quem somos, pois acreditamos nesse eterno movimento do mundo, da história, da mudança, sem nos preocuparmos com “retrovisores”, olhando para frente e querendo que o lugar para onde estamos indo, seja ele qual for, venha ser um lugar diferente e melhor para nós e para todos ao nosso redor.

Acredito que tenha sido mais ou menos isso que tu tenhas tentando passar em seu poema. Mas eu aqui, sentado em frente ao computador e com o coração pulando de alegria com a maravilhosa surpresa da madrugada, penso em mais uma coisa que vai lembrar-me desse nosso romance. Acho que talvez bem menos poético que os veículos de sua poesia – até porque eu precisei bem mais de cinco minutos para conseguir escrever algo sobre nós, e só conseguir depois dessa injeção de alegria que tu me destes – o telefone será algo pra mim marcante. Não consigo fazer metáforas sobre esse aparelho do mundo moderno para nós, mas toda vez que o ouço tocar sei que meu coração pula mais forte, pois com ele podemos viajar em nossas palavras, sem precisar de motor ou rodas.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Nova Era


Começa então uma nova Era.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Desconstruindo


Desta vez farei questão de nomear minha tão agradável interlocutora telefônica que, mais uma vez e algumas horas a mais de conversa, faz minha cabeça borbulhar de idéias: Laila. Se continuar assim, vou acabar virando escritor, pois afinal de contas hoje qualquer um pode ser.

Falando em “qualquer um” pode ser escritor, vou pedir a vocês meus amados leitores [os primeiros traços de esquizofrenia começam a aparecer] uma pausa para fazer a propaganda do blog de um companheiro meu de lutas e de álcool. Meu anarquista favorito – provavelmente o único -, kiko: http://anarconerd.blogspot.com/

Publicidade a parte, o assunto transmitido por fibra ótica que, desta vez me inspirou foi sobre relacionamento. Amor, paixão, companheirismo, ou seja, todos aqueles assuntos extremamente batidos e que provavelmente todos já falaram tudo que já tinham pra falar. Portanto, se acharam que dessa vez eu iria escrever algo mais interessante do que foi escrito nos últimos 3 posts, esqueçam e vão arrumar algo pra fazer. Ultimamente, por motivos óbvios, este é o assunto que me inspira a escrever. Contentem-se, não foi por falta de aviso. Como vocês já sabem – ou os que leram o último post já sabem – não tenho mais medo de ser repetitivo, banal, e todos os outros belos adjetivos que muitos já devem ter dado para meu blog.

Não sou mais um romântico! Calma meninas! Não deixarei de ser o homem gentil e sensível que sempre fui [minha esquizofrenia avança mais rápido que eu imaginava... será que chego ao fim do post?]. O que quero dizer é que na verdade nunca fui romântico. O que é ser romântico? Se pensarmos em termos histórico-literários o romântico é aquele cara que, como no século XIX, corteja a mulher, leva presentinhos, a conquista e no final pede a mão da menina para seu pai. Ou seja: a mulher é um sujeito passivo da história, algo a ser conquistado, o que ela faz é aceitar ou não e no final, quem dirá se este objeto pode ou não ser possuído pelo romântico, é o macho-alfa do bando, - ou o “patriarca da família” para quem prefere um termo mais romântico -.

Não... Definitivamente não sou este romântico e definitivamente é contra isso que luto. Por isso vim aqui desconstruir esta imagem. Foi contra isso que as mulheres lutaram durante o século XX, principalmente, e hoje em dia. É exatamente este amor romântico valorizado em telenovelas, filmes holiwoodianos e vendido para nós como tipo ideal de relacionamento. Depois dizem que a mulher já conquistou tudo que tinha a conquistar. Um relacionamento é algo construído por dois e os dois são sujeitos ativos de tal relacionamento, assim como devem ser sujeitos ativos da sociedade.

Já tomei providências para desmitificar esta idéia e certamente a principal delas foi sair da comunidade do Orkut “românticos assumidos”! Este foi um ato de bravura revolucionária e incentivo que todos aqueles que querem mudar nossa sociedade façam coisas parecidas em seus orkuts, pois afinal de contas é assim que aprendemos que as coisas poderão mudar... Ou será que,...

[Atenção! Minha esquizofrenia atingiu um alto grau, pois começo a achar que a sociedade na verdade se muda nas ruas e de forma coletiva.]

Oh, droga! Os Federais!

(...)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Sem Medo de Ser Idiota


Uma conversa de cerca de três horas e meia ao telefone possui duas características básicas. Não estou falando da dor na orelha, ou a dor no coração que dará no final do mês ao receber a conta. As duas características básicas da qual me refiro são primeiro: a conversa deve ser muito agradável. Isto porque, mesmo que uma pessoa chata e insistente te ligue e você, que certamente é muito educado – é fácil presumir isso pelo simples fato de que estás aqui lendo este malfadado blog -, a conversa não há de durar mais de uma hora - e caso dure é bom que você procure um especialista que te ensine a dizer “não” ao telefone, ou ao receber o link de um blog-.

A segunda característica básica é aquela que me importa nesse post especificamente. Numa conversa de cerca de três horas e meia, normalmente é abordado uma grande variedade de assuntos, tão grande quanto à variedade de assuntos que este blog pretende abordar. E por isso mesmo, durante esta agradável conversa de três horas e meia, tive umas centenas de idéias sobre o que escrever no meu blog.

Dentre tantos assuntos, um me chamou atenção. Quando meu interlocutor falou que não precisamos ter medo, ou vergonha de sermos idiotas de vez em quando. Ou seja, se nos preocuparmos em sempre falar ou escrever coisas inovadoras, inteligentes, ou qualquer coisa nesse sentido estaremos renegando o nosso lado humano idiota. Aquele lado que escreve coisas que soa retardado para todo mundo, mas que fará total sentido para uma ou duas pessoas no máximo. Além do mais, se quisermos apenas escrever aquilo que ninguém jamais escreveu, é melhor desistir e procurar o que fazer na internet – Orkut -, pois ao longo de milênios de civilização, te garanto que tudo já foi dito. Isto não tira o mérito, ou a beleza de algo reciclado após anos. Mesmo pequeninos, enxergamos mais longe quando subimos nos ombros de gigantes [frase não minha].

Por fim, essa longa introdução nada mais foi que uma justificativa patética de um poema – se é que posso chamar assim – patético que escrevi um dia desses. Mas meu agradável interlocutor de três horas e meia no telefone, me convenceu de que não devemos fugir de nossas pateticidades.

Então aí está... E vou logo alertando... Terão mais por vir. [Isto é sim, uma ameaça!]

“Que falta eu sinto...
De dizer e receber um sincero ‘te amo’

De um chamego
Do afago
De uma bobagem amorosa que em outra circunstância nunca falaríamos...
...e prometemos para nós mesmo que jamais iremos falar
De uma bobagem dita ao pé do ouvido
De uma piada interna íntima
Da saudade que bate logo após a despedida
Da ligação ‘só para ouvir sua voz’
Da festa de família chata que, mesmo assim, curtimos por estar com quem estamos
Do silêncio não constrangedor
Do desejar
Do sentir o calor da intimidade compartilhada
Do olhar que tudo diz
De ler um poema clichê desse e se identificar com cada linha...
...e imaginar uma porção de outras que caberiam aí

Que falta eu sinto...
De dizer e receber um sincero ‘te amo’”

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


O medo do desconhecido é provavelmente um dos maiores medos da humanidade. E aqueles que me vierem dizer que na verdade é o medo da morte, replico dizendo que o medo da morte é nada mais que o medo do desconhecido.

Olho nesse momento para uma estrada escura que leva algum lugar que não vejo onde. Talvez esse lugar não passe muitos metros depois que a escuridão tomou conta de tudo. Talvez, ali escondido no breu do desconhecido esteja uma parede intransponível de tijolos. Talvez o caminho prossiga, cada vez mais para longe, cada vez mais para fundo de um futuro que por mais que aperte meus olhos não consigo enxergar e que desconheço.

Seja uma parede escondida na escuridão. Seja um longo caminho que jamais saberei onde vai dar – num lugar lindo e reconfortante, ou o inverso disso – sei que não serei quem eu realmente sou se não encarar o medo e avançar. Avançar sem se preocupar o que ta para depois da escuridão. Depois do desconhecido. Continuar caminhando por essa estrada valorizando cada passo sem se preocupar com os dois passos seguintes. Valorizar essa lua cheia que sopra um vento fresco e assim refresca os corpos quentes dos que caminham. Esta lua também não sabe responder o que vem no futuro e se soubesse eu não ia querer ouvir, pois, por mais medo que tenhamos do desconhecido, tudo ficaria sem graça de nada tremêssemos.

Não se preocupe se nada entendeu deste post. Não era para ninguém, além de mim e da lua cheia, entender mesmo.